|
Sexualidade
...ou sexualidades?*
Psic. Marcelo Toniette
O
falar sobre sexualidade, muitas vezes vem atrelado à idéia de órgãos
genitais, cenas de sexo, ou qualquer outra manifestação que,
embora também faça parte dessa ampla construção social, não
representa o seu todo. Embora existam comportamentos considerados próprios
do homem e próprios da mulher, é evidente que essa abordagem está
em plena mudança, com base nos avanços da ciência e na lutas dos
movimentos feministas e homossexuais, fontes geradoras de mudança
de paradigmas, sendo, portanto, inevitável a pluralidade nas formas
de expressão.
A
sexualidade consiste numa construção social, historicamente datada
e culturalmente localizada, que transcende a genitalidade. A antropóloga
Carole Vance mostra que as culturas fornecem categorias, esquemas e
rótulos muito diferentes para enquadrar experiências sexuais e
afetivas. A relação entre o ato e a identidade sexual, de um lado,
e a comunidade sexual, de outro, é igualmente variada e complexa.
Assim, o exercício da sexualidade é ancorado nos mais variados
significados e sentidos dados de acordo com a cultura e o período
histórico. Essa definição de sexualidade é significativa para a
compreensão da transformação de formas outras de expressão
sexual que vão além do modelo heterossexual reprodutivo.
A
sexualidade humana não se limita à reprodução da espécie,
apesar de que, no passado, havia uma forte vinculação entre a
sexualidade e reprodução baseada nos modelos médico-morais.
Segundo o documento Promotion
of Sexual Health: Recommendations for Action, da Organização
Pan-Americana de Saúde e da Organização Mundial de Saúde, com
colaboração da Associação Mundial de Sexologia, a sexualidade
está relacionada ao núcleo do bem-estar humano que inclui gênero
– conjunto de valores, atitudes, papéis, práticas ou características
culturais baseadas no sexo biológico (macho ou fêmea) –, identidade
sexual e de gênero – define como a pessoa se identifica,
enquanto masculino, feminino, ou uma combinação de ambos –, orientação
do desejo sexual – uma organização específica do
erotismo e/ou vínculo emocional de um indivíduo em relação à
parceria que pode ser heterossexual (entre pessoas do sexo oposto),
bissexual (entre pessoas de ambos os sexos), e homossexual (entre
pessoas do mesmo sexo) –, erotismo – capacidade
humana de experimentar respostas subjetivas que evocam os fenômenos
físicos percebidos enquanto desejo sexual, excitação sexual e
orgasmo –, vínculo emocional – estabelecimento de
laços com outros seres humanos que se constroem e sem mantém
mediante emoções –, atividade e práticas sexuais
– expressão em que o componente erótico é evidenciado , relações
sexuais sem risco – especifica práticas e comportamentos
sexuais que evitem o risco de contrair e transmitir doenças
sexualmente transmissíveis e AIDS –, e comportamento sexual
responsável – que é expressado nos planos pessoal,
interpessoal e comunitário, caracterizado pela autonomia,
maturidade, honestidade, respeito, consentimento, proteção, busca
do prazer e bem-estar. Dessa forma, a sexualidade é experienciada
ou expressada em pensamentos, fantasias, desejos, crenças,
atitudes, valores, atividades, práticas, regras, relacionamentos. O
documento firma que a sexualidade é resultado da integração de
fatores biológicos, psicológicos, sócio-econômicos, culturais,
étnicos e espiritual/religioso.
Diante da diversidade de formas na expressão da sexualidade,
emerge o questionamento de modelos fixos do que é ser masculino e
do que é ser feminino, dando espaço para o reconhecimento de masculinidades
e de feminilidades. Tais possibilidades devem ser
reconhecidas e preservadas, numa perspectiva de valorização da
singularidade humana. No tocante a essa questão, utilizamos o termo
identidade de gênero para se referir à construção
das masculinidades e das feminilidades. Essa idéia se apóia no
fato de que temos machos e fêmeas na espécie humana, sendo que a
qualidade de ser homem e de ser mulher é condição construída
socialmente. A construção dos gêneros está ancorada no sistema
particular de valores culturais, a partir de um conjunto de práticas,
formas simbólicas, representações, normas e valores sociais, que
moldam o corpo humano e suas práticas em noções de masculinidade
e feminilidade.
O conceito sexualidades traz consigo a idéia
da inclusão de diferenças e diferentes
identidades e formas de expressão. Muitas vezes as queixas
afetivo-sexuais levadas aos consultórios psicológicos estão
embasadas em uma carência de informação e/ou orientação sobre
sexualidade, além da consciência da existência de múltiplas
formas de ser-no-mundo. A riqueza humana está fundada nas diferenças
e não na incessante luta para enquadrar diferenças em moldes pré-estabelecidos.
Cabe a cada um de nós contribuir com a nossa própria diferença
para a construção de um contexto de igualdade, respeito,
eqüidade de gênero e de aceitação – não
discriminação – por razão de gênero, bases estas que favorecem
a saúde sexual, na convivência ética e cidadã.
________________________________________________________________
(*)
Artigo publicado em: TONIETTE, Marcelo A.
Sexualidade ...ou sexualidades?
Boletim
Informativo CEPCoS – Centro de Estudos e Pesquisas em
Comportamento e Sexualidade, São Paulo, ano X, n.3, p.1,
mar.
2004.
Editora Vera Lucia Vaccari.
|
|